Obrigada, antes de mais nada. Sim, por que não tenho como começar isso de outra forma, a não ser assim. O jeito que você se doa pra mim, a maneira como diz me amar (e me faz ter certeza disso todos os dias) e até o jeito que me olha, me fazem começar a carta com um “obrigada”. E novamente, cá estou escrevendo ao invés de dizer. Não consigo dizer, você sabe disso.
O fato é Belly, que estou te deixando. Não por que estou interessada em alguém, ou por que não preciso mais de você. O fato é que estou te deixando. “Deixando por que?” Você deve estar pensando. Por que não te amo como você merece ser amado. E não é nem pelo fato de você ter ferido meu orgulho. Acho que uso isso como muleta pro que sinto de verdade. Se dói em você ver isso, acredite que escrever está sendo tão desgostoso quanto.
Dói você me olhar com jeito de menino apaixonado e eu não conseguir te olhar da mesma forma. Sinto um imenso carinho por você, por que antes de você ser meu namorado, você é meu amigo. Mas amor, aquela antiga paixão dos meus treze anos, isso eu não sinto mais. E não sei em que parte do caminho ela deixou de existir. Só sei que a perdi e para ser redundante, não sei onde está.
E você merece muito mais do que isso. Mais do que te dou. Muito mais, aliás. Você merece alguém que te ame de volta e que seja pra você algo que não sou: sua. Inteira sua, que se doe e baixe os olhos pra você e seja capaz de qualquer coisa pela sua felicidade. Por que é isso o que você faz pelas pessoas que ama. E “pelas pessoas que ama” lê-se “por mim”.
Olhe tudo o que você faz por mim, Panço! Vamos, deixe o desespero de lado e raciocine. Ponha na balança. Você me prioriza em tudo. E você não é nenhum tapado pra não ver que não eu faço a mesma coisa. Você entendeu o que eu quis dizer, agora pare de negar os “não” da última frase. É sério. Você merece mais do que tem nesse momento. Eu não me doo por você. Eu não me sacrifico pela sua felicidade. Eu não saio do meu eixo por você. Já você, você se equilibra no meu eixo e faz o que pode por nós dois. E isso eu não quero mais. Não posso mais admitir isso. Veja o mundo pelos meus olhos, pelo menos uma vez. Veja que não sou tão boa quanto você acha que sou e não mereço seu sacrifício. Ah, se você soubesse de tudo, veria que eu não valho nada.
E não precisa olhar pra mim e dizer que valho. Eu me conheço. Mais do que achei que conhecia, aliás.
Não vou dizer que vai ser fácil parar de te ver, ou de ter você por perto. Mas acredite, seus olhos apaixonados sobre mim o tempo todo me ferem mil vezes mais, do que não tê-los mais por perto.
E você é um cara bom. Que quer casar, quer ter filhos, quer ter uma família. Eu só quero ter sorte no jogo, se é que me faço clara. Só ter grana pra pagar umas japonesas de vez em quando e falantes da Meyer na sala. E não vou dar uma de fodona e dizer que sempre pensei assim. Pelo contrário, com treze anos, eu pensava em você como pai dos meus filhos, seria o cara pelo qual eu prepararia o jantar e deixaria sentar na ponta da mesa, como o chefe da família. E hoje não é mais. O que caralhos mudou, então? Simples: eu cresci. Foi isso o que aconteceu. Eu cresci e você nem percebeu. Você ainda é capaz de me ver como a menina de boné de anos antes. Aliás, foi dela que você aprendeu a gostar. De boné verde. As calças com as barras fodidas. As calças continuam fodidas, meu bem. Mas o boné se foi. A menina se foi. E deus! Eu me recuso a dizer que virei mulher. Por que olhe bem pra mim, eu tenho só a embalagem de mulher. Não tenho saco nem pra salto, nem pra mulherzices. Eu só tô mais velha. Seis anos mais velha, aliás. Eu não sei o que sou e talvez nunca saiba exatamente, mas você belly, você merece uma mulher. Uma mulher de salto alto e de mulherzices. Uma que você veja que dentro dos olhos ainda seja uma menina, mas aja como uma mulher e te dê o que você precisa: atenção. Atenção e o tal do amor. Por que eu já segurei a tua fila por seis anos.
Se você precisar de tempo, eu te dou tempo. Nem que seja um tempo pra você gritar “FILHA DA PUTA!”. Eu vou estar sempre aqui pra ser seu ombro pra quando você precisar chorar, ou mesmo se precisar rir. Eu vou sempre te receber. Vou sempre querer saber dos teus feitos nerds, do menosprezo que você deu nos outros, das vagabundas que você maltratou. Sempre. Por que é isso o que os amigos fazem. E eu te vejo como o melhor dos meus amigos. Melhor amigo, muito mais do que o gay, se você quer saber.
Mas não me peça pra voltar a usar aliança. Não me peça pra ser sua. Estou te deixando, Belly. E pra seguir sozinha.
E se você quiser usar o silêncio contra mim pra me ferir, eu vou te entender e se esse silêncio perpetuar, eu vou sentir tua falta e você nem sabe o quanto. Seja meu amigo, se quiser. Lote minha caixa de email se você quiser. Todas as três. Coloque meu msn no bate-papo de sexo se achar que mereço. Faça o que quiser, eu vou entender. E nem vou dar o troco.
Mas não me implore pra voltar. Desculpe Panço, mas voltar eu não volto não.
Beijos de quem gosta de você pra cacete,
Cá.