Acordou tão ruim naquele dia, que enrolou pra sair da cama. Não tinha nada demais pra fazer, também. Só ligar o computador e ver as ações subindo e descendo. Como foram todos os dias anteriores e como seriam os próximos. Assim, sem graça. Quinze minutos deitados a mais ou a menos não faria diferença. A Vale não quebraria. A Nintendo não teria uma alta de 400%. O lastro nacional não aumentaria drasticamente. Tampouco diminuiria.
Não conseguia dormir mais, também. Algo não o deixava. E não era a sempre dor nas costas. Algo diferente. Algo que ele nunca dava importância. Problemas do coração. E aqueles eram problemas que um rivotril aqui e outro ali não daria jeito. Só se ficasse dopado todas as vinte e quatro horas do dia. Começou balançando os pés. Olhando o teto, admirando o falso céu que mandou pintar, pra não ter que olhar pela janela e ver o cinzento diário. Tão sem graça! Tão metrópole! Tão rotineiro.
Os celulares e os telefones logo começaram a tocar. É ruim ser reconhecido em algo por isso. O mundo exige tanto e te dá tão pouco, que você acaba vivendo pra mostrar ao ingrato mundo que você ainda é bom naquilo que faz. O mundo podia pelo menos te dar bons amigos em troca. Pra poder sair no sábado à noite e vadiar na calçada, rir da embriaguês alheia e da própria. Ou só o amor instantâneo de uma bela dama. Por que era pra isso que elas serviam, no fim das contas. Mas não. O mundo era ingrato.
Um dia, em sua adolescência inconsequente, onde a velha frase “quando era feliz e não sabia” lhe cabia perfeitamente, disseram que o mundo era o que ele quisesse que fosse. Só esqueceram de lhe dizer que o mundo era sempre cruel, fosse como fosse. Como um gênio sádico, ou orgulhoso. Se você quisesse um amor pra vida toda e só isso, ele irá te bater, te massacrar e só depois te dará um amor, como você mesmo pediu. E esse amor poderia não responder aos teus sentimentos.
Fez o que tinha que fazer. E só precisou de quinze minutos para saber o que era certo. Agora a Vale, a Nintendo e o lastro na interfeririam em teu dia. Nem os touros de NY.
E as velhas que corriam de manhã gritaram de horror, quando viram seu corpo voar pela janela de sua cobertura, batendo com força no chão.
O corpo quase não fez barulho, comparado ao sempre caótico trânsito. Como em qualquer metrópole. Ninguém ouviu muita coisa, fora um baque oco. E escorreu sangue como água escorre do gelo.
Nenhuma glória na morte. O mundo só vai precisar de outro cara bom em ações. Vários estagiários para ocupar a posição.